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Sete coisas que ninguém fala sobre enxaqueca

Sete coisas que ninguém fala sobre enxaqueca


Enxaqueca é uma doença rodeada de mitos. Quase todos pacientes que procuram atendimento com o neurologista tem noções equivocadas sobre a natureza de sua dor. Aqui vão alguns fatos que me vejo repetir em consultório no dia a dia e que são uma surpresa para a maioria das pessoas.

1) Enxaqueca é uma inflamação.

Imagine sua dor de cabeça como um incêndio. No caso do enxaqueca, o fogo se inicia na base do encéfalo, na região denominada de tronco cerebral para depois se espalhar para o córtex e para os tecidos ao redor do cérebro. Esse incêndio é desencadeado por uma série de transmissores que, ao serem liberados, provocam uma depressão elétrica e mudanças no calibre dos vasos que irrigam o cérebro. O resultado disso são os pontos cintilantes na vista (aura visual), a dor latejante, sonolência, irritação e uma lentidão no raciocínio. Muitos anti-inflamatórios podem ser úteis no tratamento da crise de enxaqueca. Dipirona, paracetamol, naproxeno, cetoprofeno são alguns exemplos de medicamento eficazes nas crises.

2) Não perca tempo!

Como todo incêndio, o fogo começa de forma localizada. Quando ainda está localizado, fica mais fácil apagá-lo. Depois que toma conta de tudo, nem mesmo o corpo de bombeiros poderá ajuda-lo. Transferindo a metáfora para enxaqueca, a inflamação está inicialmente restrita ao tronco cerebral para somente depois se espalhar para o resto de cérebro. Um analgésico na hora certa pode abortar a crise com sucesso.
O segredo é tomar o medicamento o quanto antes. Muitas gente espera a dor estar mais forte para considerar o analgésico. Isso é um erro. Use o medicamento indicado pelo seu médico assim que sentir qualquer sintoma. A enxaqueca pode vir precedida de fenômenos premonitórios. Um aviso antes da dor. Para alguns é uma irritabilidade, para outros uma sonolência ou uma sensação de raciocínio lento. Tonturas, enjoo também podem acontecer. Se você for capaz de identificar esses sintomas, faça uso do analgésico, pois o incêndio já começou, e o que você está sentido é o cheiro da fumaça.

3) Ataque aos sentidos.

Enxaqueca irrita os neurônios. Essa irritação provoca um estado de aumento de sensibilidade dos sentidos que é típico de pessoas que tem enxaquecas frequentes. É como se o volume dos estímulos sensoriais estivesse aumentado no máximo. O sons ficam mais estridentes, as luzes mais brilhantes e os cheiros insuportáveis. Até mesmo o tato é afetado. O simples toque pode ser desagradável, especialmente no couro cabeludo. Isso explica porque uma pessoa com crise de enxaqueca procura se isolar num canto escuro e silencioso: para fugir dos seus sentidos. Mesmo entre uma crise e outra esse estado de hipersensibilidade pode persistir, o que leva o indivíduo a evitar estímulos sensoriais mais intensos.

3) Trate do estômago e da cabeça.

A enxaqueca afeta o estômago e pode provocar enjoo e até mesmo vômitos. O resultado disso é que nada desce. Alimentos, líquidos e os medicamentos não conseguem progredir no trato digestivo. As pílulas ingeridas para o tratamento da crise não chegam ao intestino, local onde seriam devidamente absorvidas. Perdem, portando, sua eficácia e não conseguem abortar a crise de enxaqueca. Existem algumas alternativas para melhorar essa situação. Recomenda-se o uso de medicamento contra vômitos antes ou junto com o analgésico. Uma alternativa é o uso de medicamentos injetáveis, supositórios, sublinguais, subcutâneos e até mesmo nasais. Vários laboratórios disponibilizam medicamentos para enxaqueca que são administrados por essas vias. Fale com seu médico sobre essas alternativas.

4) A dieta realmente interessa?

Esse é um debate quente entre os especialistas. Recomenda-se que a pessoa de enxaqueca evite longos períodos de jejum e que adote bons hábitos alimentares, com uma dieta balanceada, livre de alimentos processados e com frutas e legumes e bastante líquidos. Mas isso vale para todo mundo. Não há consenso sobre uma “dieta da enxaqueca” ou grupos alimentares específicos que devam ser evitados. Tratados como os vilões da história, o chocolate, queijos vinhos, o glutamato monossódico e o café são considerados como gatilhos de crise. Porém a evidência científica é escassa e não estabelece uma relação consistente entre o consumo desse alimentos e dor. Se você tem enxaqueca e percebe que há um relação entre algum alimento e sua dor, evite esse alimento. O que eu sempre comento é que um bom tratamento de enxaqueca deve permitir a pessoa comer aquilo que gosta sem se preocupar com dores de cabeça, só com as calorias extras.

5) Enxaqueca pode piorar se não tratada;

Vale a pena lembrar dessa mensagem: nosso cérebro aprende tudo, até mesmo coisas erradas. Esse aprendizado é chamado pelos cientistas de neuroplasticidade. Quando a dor ser repete, é como se o nosso cérebro aprendesse um mau hábito. E como todo hábito, se ele se tornar muito antigo e frequente, será difícil de reverter. Sabe-se, por estudo de imagens do cérebro, que enxaqueca crônica não tratada altera a região do tronco cerebral chamada de substância cinzenta periaquedutal. Essa mudanças podem se tornar definitivas depois de algum tempo e essas pessoas podem passar a ter dores de cabeça de muito difícil controle. Portanto, uma enxaqueca não tratada pode evoluir para um grande problema, refratário a tratamentos típicos. Esse é um dos maiores desafios no grandes centros de tratamento de dor crônica: reverter uma vida de aprendizado de dor.

6) Remédios para dor podem piorar a enxaqueca.

É comum pessoas com enxaqueca frequente abusarem de analgésicos. Os médicos consideram abuso o consumo de analgésicos mais que 3x por semana. Muitos pacientes chegam até meu consultório tomando analgésicos 3x por dia! Esse medicamentos não foram feitos para serem consumidos dessa forma. As consequências podem ser muitas: gastrite e úlcera, hepatite medicamentosa e insuficiência renal. Uma consequência pouco conhecida e comum do abuso de analgésico é a piora da dor de cabeça. A classificação internacional de enxaquecas tem até um nome próprio para isso: cefaleia por abuso de analgésicos. Paradoxalmente, retirar os analgésicos dessas pessoas podem melhorar a dor. É como se o corpo “acordasse” para a luta e passasse a procurar saídas para a dor. Infelizmente, muitas pessoas caem na armadilho do abuso de analgésicos, que acaba piorando a sua enxaqueca e torna o tratamento um desafio ainda maior.

7) Enxaquecas doem mais que tumores

Curiosamente, o cérebro não tem terminações nervosas. Você pode fatiar um cérebro de uma pessoa acordada que ela não vai se queixar (não de dor, pelo menos). Neurocirurgiões às vezes fazem isso para saber se estão no lugar certo durante uma cirurgia. Mas se o cérebro não dói, o que provoca a dor de cabeça? Resposta: todo o resto. São sensíveis a dor os grandes vasos, os seios nasais e as meninges, que são as capas que revestem e protegem o cérebro. A enxaqueca provoca dor principalmente por conta do efeito que tem sobre os vasos do cérebro. Daí aquela sensação de latejar, comum nas enxaquecas. Tumores do cérebro só provocam dor quando passam a ter um determinado tamanho que provoque compressão ou irritação de estruturas sensíveis à dor. Isso geralmente só acontece em fase avançada da doença, quando o doente já está acamado e muitas vezes pouco consciente sobre seu estado.

Sobre o autor: Dr. Glauber Ferreira é médico neurologista e felizmente não tem enxaqueca, mas compadece com os seus sofredores.

Publicado em: 08 / Out / 2015

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